Segunda-feira, Março 28, 2005

Certo dia alguém disse:
- Vou tornar as pessoas mais infelizes!
E assim surgiu o horário comercial. Só queria entender a necessidade de acordar cedo, de começar a trabalhar às oito, nove horas da manhã. É desumano, coisa de gente que quer se vingar da felicidade alheia. E não vem com essa de que o dia começa cedo. O dia começa quando eu acordo, e pronto. Pense bem: se você funciona com mais disposição a tarde ou a noite, eventualmente até durante a madrugada, de que adianta levantar cedo e ficar com sono? Ao invés de acordar sorrindo e render no horário que seu corpo funciona, você passa o dia caindo de sono, babando em cima do teclado.
Eu sou a favor de um movimento 'eu acordo para almoçar'. Além de dormir mais, você não passa horas pensando naquela comida maravilhosa, esperando que dê o horário de almoço.


Sábado, Março 19, 2005

Eu desisto da vida de publicitário. Simplesmente não dá. Minha última tarefa no serviço: procurar fotos em livros de banco de imagem. Simplesmente impossível querer continuar vivo depois disso. Você descobre que não conhece os lugares mais bonitos do mundo, que você é minúsculo perante tanta coisa e que existe gente muito, muito bonita. Aliás, eu odeio gente bonita. Sabe, pedi em casamento mais de cinqüenta fotografias, e todas esnobes me recusaram. Estou me sentindo rejeitado, mais uma vez. E nessas horas parece que todos aquelas gorduras que você sabe que existem a mais se tornam a parte mais chamativa do seu corpo. Aí depois vem o velhinho do 'sunscreen' e fala para não ler revista de beleza. Coitado, deixa ele ver um desses catálogos que ele refaz o discurso todo, enfatizando para não olhar mesmo catálogo de imagens.


Quarta-feira, Março 16, 2005

Minha mãe está me sabotando. Desde sempre fui um dependente dela em assuntos de compra de produtos para higiene. Nunca soube que sabonete branco agride menos a pelo que sabonete colorido, pra mim melhor era o cheiro, e era tudo feito de cachorro que a carrocinha pegava. Nunca fui quem decidiu qual sabonete comprar, e o máximo que fiz foi pegar na gôndola quando ainda ia ao supermercado com minha mãe. Eis que estava acabando meu desodorante deste mês e, como costume, avisei minha mãe sobre o fato, afim de que ela comprasse novos antes que eu fedesse mais que ônibus as seis da tarde. Sempre foi assim. Dias depois, abro meu armário e o que encontro lá? Um tudo de desodorante, e a fragrância errada. Claro que fui questionar minha mãe sobre o que houve, e ela me informa que não havia outro. Disse que não era aquele, e ela que trocasse, então. Entendi que ela trocaria, e deixei o tubo em cima da mesa da lavanderia. No dia seguinte, como um fantasma, o desodorante está de volta ao meu armário. Dessa vez nem ousei questionar, acho que ela quis dizer que não vai trocar por mim, então é melhor eu comprar meu desodorante de agora em diante e crescer. Só me recuso ainda comprar minhas próprias cuecas. Isso sim seria um desligamento total.


Sexta-feira, Março 11, 2005

Hoje minha bisavó de oitenta e oito anos aprendeu a usar o aparelho de fax. Sim, sim, minha avó de sessenta e seis ensinou ela pelo telefone como realizar tal proeza. Claro que levou um razoável tempo para o acontecimento, mas aconteceu. Agora imagine só uma senhora ensinando outra senhora a usar o aparelho:

- Coloca o papel virado para baixo, no buraco, na direção do seu corpo.
- Tá, coloquei.
- Aperta o botão verde.
- Tá, apertei. Espera, o papel prendeu. O que eu faço?
- Puxa!!
- Puxa como?
- Puxa pra fora!
- E agora?
- Coloca de volta no buraco.
- Prendeu de novo.
- Então tira e faz novamente.

Enfim, minha avó recebeu a receita depois de um tempo, e minha bisavó aprendeu a usar o fax. Agora ninguém mais segura nem uma nem outra, porque minha avó conclui que se a mãe dela aprendeu a mexer no fax, ela consegue aprender a mexer no computador. Quem não gostou muito dessa história foi meu avô, que já está prevendo as horas na assistência técnica do brinquedo que ele mal sabe mexer ainda.


Segunda-feira, Março 07, 2005

É fato: Paulistano que é paulistano é apressado e está sempre atrasado. Repare: Circule alguns minutos na Avenida Paulista num dia calmo, quando não tiver nada para fazer. Com certeza será atropelado (no mínimo) umas cinco vezes por alguém desesperado tentando desviar de você, pois acredita que assim chegará no horário ao compromisso. Eu sei porque faço isso.
Certo dia estava eu saindo (como sempre) atrasado para o serviço. Atrasado não, digamos 'em cima da hora'. Estou caminhando despreocupadamente rápido, chegando ao ponto de ônibus, quando quem aparece? O maravilhoso transporte coletivo que me leva todo dia à labuta. Como paulistano de carteirinha, não poderia perder o ônibus das 7h40 (8h é quase uma vida para esperar) e saí correndo para conseguir pegar o ônibus no horário, encarando o farol e repetindo baixinho 'fecha, fecha', porque, afinal, tenho superpoderes, e o farol fechou. Mais tranqüilo, com o ônibus parado e eu a uma faixa da avenida de distância, resolvo atravessar. Claro que não na faixa e sim na frente do ônibus mesmo, afinal ansiava pelo contato humano que me esperava lá dentro. Eis que faltando dois passos para alcançar a calçada, caio de boca no chão, ralando todo o joelho e emitindo um som parecido com 'ai, merda'. Perguntas? Sim, todos que estavam no ponto e dentro do ônibus riram; Sim, eu entrei no ônibus mesmo assim; Não, não achei legal; Sim, meu joelho ainda dói;
Amanhã eu volto mais uma vez para a rotina, não vou acordar mais cedo, porque paulistano que é paulistano prefere sair correndo e ralar o joelho ao perder uns minutos de cama.


Sábado, Março 05, 2005

Cansei. Cansei de tentar justificar o injustificável, de explicar o que não necessita de explicação e ter dor de cabeça por algo que não merece uma gota de aborrecimento. Eu cresci, por mais estranho que pareça dizer isso. Ou me acompanhe, ou veja eu me afastando cada vez mais, porque se queria um boneco, que comprasse, eu não sou.